As grandes capitais atualmente se defrontam com o problema do trânsito. A grande São Paulo encontra-se estagnada em meio a quotidianos quilômetros de engarrafamento acentuados nos horários de pico.
Entretanto, o problema não atinge somente essa grande cidade. Capitais de todo o Brasil encontram-se em vias de alcançar tal feito caótico. Curitiba está entre essas capitais, e se não tomar providências nos próximos cinco anos, com início imediato, seu trânsito estará se não igual, pior que São Paulo.
Nesse sentido, arrisco dizer que o problema do trânsito é estrutural. Está tão fundo que é necessário retornar á lógica estatal. Tudo bem, vamos ao ponto. É necessário rever qual é a função do Estado. Não vamos retornar a Russeau, Locke, ou Voltaire, fique tranquilo. Partindo do pressuposto que o Estado tem o fim de garantir o bem comum (noção um tanto quanto subjetiva) ele deve privilegiar o coletivo, em detrimento do particular, ou seja, o que é coletivo deve ser prioritário em todas as coisas por oferecer maior garantia do bem comum.
Nosso trânsito não se orienta dessa maneira. O modelo atual privilegia o particular, o privado, em detrimento do publico e do coletivo. Com uma breve observação dos carros no horário de pico (ou mesmo fora dele) é muito maior o numero de carros de cinco lugares ocupado apenas pelo motorista, do que o numero de carros de cinco lugares com todos os lugares ocupados.
Entretanto, muita gente que usa carro não usaria ônibus pela precariedade da qualidade do transporte em vistas das condições dos veículos, e a superlotação encontrada, além de sofrer os mesmos distúrbios dos carros no transito quando há congestionamento.
Temos aí dois argumentos: A qualidade do transporte não favorece. Fica parado no trânsito como os carros. Nos dois argumentos, (que são verdadeiros, aliás) percebemos a lógica invertida da nossa sociedade estimulada pelo regime econômico que vivemos que privilegia o particular em detrimento do coletivo, o eu ao invés do nós.
A qualidade do transporte coletivo não é boa porque ele é feito para pessoas que não tem condições de ter um veículo próprio. A grande verdade é que tão logo que um usuário passe a ter condições de adquirir um carro e mantê-lo, ele abandonará o ônibus coletivo. Talvez ao ler isso, um leve desconforto surja no intimo do leitor que sabe e que pensa essas ideias. O desconforto é justamente pelo teor de verdade contido no que leu.
É necessário então que haja uma mudança de mentalidade por parte da sociedade sobre o sistema de transporte coletivo. O transporte coletivo deve ser prioridade na sociedade. Tanto pela sua eficiência, seu custo e, sobretudo pela sua qualidade. Andar de ônibus deve ser agradável. Isso se dará com leis mais rígidas por parte da concessão publica para o transporte, com a regulação do transporte com a participação dos usuários e dos motoristas, cobradores, e demais funcionários. É necessário que o transporte coletivo seja mais um ambiente onde a democracia e o coletivismo possam ser exercitados.
Em segundo lugar, não basta que internamente o sistema de transporte sofra uma resignificação. É necessário que se empreendam alterações externas na lógica do transporte. Uma ótima ideia em vigor no transporte de Curitiba são as canaletas, vias exclusivas para ônibus. Entretanto, essa ideia deve ser explorada mais a fundo. Partido da ideia que o coletivo deve ser privilegiado, em detrimento do particular, nas grandes avenidas e vias rápidas ao menos uma pista deveria ser de tráfego exclusivo dos ônibus, ou seja, multiplicar as canaletas no trânsito seria o meio mais prático de expressar politicamente esse privilégio ao que é coletivo.
Alguém poderia pensar: - mas se houver a transformação de pistas em canaletas, haverá a diminuição de vias para os carros, e consequentemente o transito será mais lento. Sim, é verdade, entretanto apenas para carros. O uso do carro é superestimado por nossa sociedade individualista e consumista, que vive de aparências. E o uso do carro deve ser desestimulado no dia-a-dia.
Não quero dizer que o carro é mau em si mesmo, ou inútil. Quero, entretanto afirmar que ele não é o melhor meio de transporte para o dia-a-dia, mas para passeios, para ocasiões que houver necessidade de transportar várias pessoas, ou num caso de emergência (entre outros).
Outro meio muito útil é o uso da bicicleta, que está ganhando muita força hoje em dia. Como meio de transporte alternativo só há benefícios por parte daquele que faz da bicicleta seu meio de transporte, que deveria obter a atenção por parte das políticas públicas como meio de transporte privado mais indicado e mais estimulado com canaletas, com guardas municipais em ronda nessas canaletas, e com outras medidas que outras pessoas poderiam tratar com mais propriedade do que eu.
Sei, entretanto que essas soluções podem soar desagradáveis por parte de uma classe social que nunca pisou num ônibus e tem medo de se misturar com a outra parte da sociedade assim como podem soar desagradáveis por parte de outra classe que agora está obtendo meios de adquirir um automóvel, não apenas pelo aumento do poder de compra dos últimos dez anos, mas também estimulado pelo fetiche da mercadoria: do conjunto de ideias que acompanham o carro, como a aparência de sucesso, de riqueza, e de status social que podem lhe conferir vantagens em algumas situações.
Apesar de desagradáveis, agora, pode ser que daqui a dez anos sejam obrigatórias pelo colapso do transito. Quando as pessoas não conseguirem mais chegar á escolas e locais de trabalho, quando a violência e o stress no transito superar o limite do civilizado, não haverá espaço nas políticas públicas e mudança na mentalidade para o “não quero” e “não gosto”.
No fim, acredito que deveríamos mudar enquanto a situação ainda se encaminha para o caos, assim como sei que há pessoas que acreditam que a mudança é impossível. Como disse Leon Trótski, “Revoluções são impossíveis, até que se tornam inevitáveis”.